Inspiração para a quebrada: voz aos escritores vivos
Por Paula Sant'Ana

Roda “Conversa vai, com versos vêm” - com Sérgio Vaz e Cidinha da Silva, em 16 de setembro de 2019. Foto: Reprodução Facebook Felizs
Habitantes da periferia têm focado em ouvir e acompanhar escritores locais, alimentando-se de conteúdo repleto de representatividade
Os holofotes culturais em São Paulo focam no que é apresentado em bairros centristas, com maior poder aquisitivo e com estrutura melhor desenvolvida. Entretanto, existe vida consciente da ponte para cá.
Evidenciando as ações literárias na periferia, a zona sul é o carro chefe. A Felizs Feira Literária da Zs, ocorreu no mês de setembro e, dentre as dezenas de programações, houve uma subdivisão mapeada, espalhada por Capão Redondo, Campo Limpo e Taboão da Serra, cidade metropolitana da região.
É entre sorrisos e cumprimentos, que Robinson Padial, 54 anos, conhecido por Binho, conversa com quem chega perto dele. Um artista acessível, que iniciou sua trajetória poética em 1997, a partir de colagens de seus escritos em locais públicos. "[Eu] não conhecia nenhum poeta vivo. A partir disso, de colocar as poesias no poste, começou a vir pessoas interessadas". Fomentando identificação e representatividade, a ideia é pegar a população de surpresa, quando não esperam receber uma "dose de poesia", no dia a dia.
Ouvir escritores vivos é salientar que existe possibilidade de participação em outros lugares, não apenas ao acompanhar exposições internacionais. “A importância é mostrar que há outras pessoas, outros fazedores de cultura, coisas locais, não é de fora. Porque muita gente pensa que preciso trazer cultura para a periferia.”
Eu não conhecia nenhum poeta vivo. A partir disso, de colocar as poesias no poste, começou a vir pessoas interessadas.
Robinson Padial, Binho
Com o intuito de homenagear o poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta José Paulo Paes, a FliPenha chegou a sua 2ª edição. No mês de outubro, o tradicional bairro da Penha, localizado na zona leste de São Paulo, alimentou-se de manifestos culturais pensados para interação da comunidade.
Cabe reconhecer, no entanto, que a temática das atividades realizadas foram essencialmente: Pós-verdade, humor, política e literatura. Os formatos, em geral, subdividiam-se em: saraus, slams, debates, exposições, exibição de filmes, contação de histórias, oficinas, conversas com escritores, entre outros.
Paralelo a isso, a iniciativa Papo de Comadre participou do evento. Caracterizada por ser uma roda de conversa em que se lê mulheres, escritoras atuais, engajadas em causas feministas e sociais. Sophia Castellano, 26 anos, produtora e gestora do grupo, afirma que os afazeres do dia a dia mudam a participação feminina na criação. “Não é reunião de pais, né? É de mães, só tem a mulherada. Ainda no meio de tudo isso, sair, trabalhar e cuidar da casa”.

Placa indicativa, na Praça do Campo Limpo, zona sul. Foto: Marcos Marinho
Literatura e movimento negro
A última semana de outubro foi movimentada pela realização da 12ª mostra cultural da Cooperifa, feira oriunda dos saraus realizados por Sérgio Vaz e o recém falecido Marco Pezão, ambos moradores da região sul de São Paulo.
Partindo do pressuposto que a literatura marginal é produzida pelos habitantes das comunidades, nota-se a forte presença negra. A luta é, por vezes, comparada a um quilombo, visto que existe uma distância de acesso à parte exterior. "A periferia não é apenas um espaço geográfico afastado do centro, é principalmente, um espaço racialmente apartado" - Luciana Moreno, professora adjunta da Universidade do Estado da Bahia, em discurso na Fábrica de Cultura do Jd São Luís.

Intérprete de libras, Hamilton Borges, Luiz Silva “Cuti” e Luciana Moreno durante o Debate: “Quilombo Literário na Encruzilhada”, em 26 de outubro de 2019, no penúltimo dia da 12ª mostra cultural da Cooperifa. Foto: Paula Sant’Ana
Dessa maneira, ocorre fusão do tradicional e do novo, com enfoque na negritude. Luiz Silva, conhecido pelo pseudônimo “Cuti”, 68 anos, mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira, foi um dos precursores do movimento Quilombhoje, no qual se manteve até 1993. “Tenho certeza que a literatura não será destruída, ainda que destruam todos os livros, não poderão queimar a nossa luta”. Hoje, ramificações dessas ideias aumentam a participação de jovens e adolescentes negras.
A luta contra o sistema vai além da política, pode ser uma forma de intervenção, utilizando poesia e escritos que fomentam identificação e representatividade. Como suporte, a convergência literária é também um incentivo para horizontes distintos. Os estilos e os tipos de misturam. Faz-se necessário investimento contínuo, juntamente a uma mediação qualificada. Assim, a inserção periférica apresenta o que tem a acrescentar à sociedade.
